MODA, CLASSE E PRECONCEITO: O CAMINHO DESIGUAL DAS TENDÊNCIAS

A moda, para além do estilo e da estética, é uma forma de pertencimento, reconhecimento e comunicação social. Nesse contexto, o uso de marcas associadas à elite por jovens das periferias urbanas não representa apenas um fenômeno de consumo, mas uma busca simbólica por visibilidade, autoestima e prestígio.

Em uma sociedade atravessada por desigualdades raciais e de classe, até mesmo um calçado pode carregar significados profundos relacionados a poder e identidade. No momento em que esses símbolos de status tornam-se acessíveis às camadas populares, frequentemente passam a ser rotulados como “bregas”, “fora de moda” ou simplesmente perdem o seu valor social. Assim, um movimento que poderia significar inclusão simbólica e afirmação cultural acaba sendo transformado em mais um mecanismo de exclusão e controle social.

Diante disso, é necessário perguntar: por que o acesso da periferia aos códigos visuais da elite ainda incomoda tanto? O que essa rejeição revela sobre os limites simbólicos impostos por uma sociedade profundamente estratificada?

A moda como símbolo social e instrumento de distinção

A moda nunca foi apenas uma questão de gosto individual: ela funciona como um código social que comunica pertencimento, valores e status. A moda é arte e também é luta — uma forma silenciosa, mas poderosa, de movimento político. Sendo uma construção social, é natural que também seja impactada pelas desigualdades de classe: a moda pode distinguir o que é visto como elite e o que é rotulado como pobreza.

Dentro desse sistema, marcas e estilos passam a representar refinamento e exclusividade — não necessariamente por sua qualidade material, mas pelo que simbolizam: peças mais caras, vendidas em lugares nobres e associadas a grupos de alta classe. Vestir-se “bem”, nesse contexto, significa seguir códigos que determinam quem é aceito e valorizado em determinados espaços sociais.

No entanto, quando esses códigos passam a ser apropriados por pessoas historicamente excluídas — como jovens negros e periféricos —, a elite reage tentando redefinir o que é considerado bonito, estético e de bom gosto. A mudança de percepção não está no objeto em si, mas em quem o carrega. A moda, assim, torna-se um campo de disputa simbólica, onde a classe dominante tenta proteger sua exclusividade. Quando esses símbolos passam a ser democratizados, o incômodo não vem da perda de valor material, mas sim da perda do poder de distinção.

Ressignificação periférica dos símbolos de status

Preconceito

A questão que inicia esse tema é: como e por que as marcas de elite passaram a ser consumidas nas periferias? A resposta é direta: por influência do funk ostentação. Artistas vindos da realidade dura das favelas, que conquistaram visibilidade e fama por meio de suas músicas, tornaram-se referência. A vida de superação e luxo retratada em suas letras passou a inspirar jovens excluídos e marginalizados, que enxergavam nesses símbolos uma forma de autoestima e reconhecimento.

O funk ostentação simboliza a vontade de ser visto, de causar impacto e afirmar valor por meio da imagem: carros importados, mansões e roupas de grife. Para muitos desses jovens, ainda sem acesso ao mesmo padrão de vida, a estética se tornou o primeiro passo. A forma de se vestir passou a ser uma maneira de comunicar ambição, identidade e dignidade — um gesto de resistência simbólica. Marcas como Lacoste, Oakley e Tommy Hilfiger começaram a circular nas periferias por meio de brechós, peças falsificadas ou heranças familiares. A sensação de pertencimento a algo maior passou a ser possível, mesmo à margem do consumo tradicional.

A reação das marcas à democratização

Toda causa tem uma consequência: a democratização da moda não agradou a maior parte das marcas que foram popularizadas, já que essas deixaram de ser exclusivas aos mais ricos, passando a ser vistas como “comuns” ou “hypadas”, como se a popularidade fosse algo negativo.

Isso fez com que tais empresas adotassem atitudes questionáveis, como tentar ao máximo se desvincular da periferia e do universo do funk — como é o caso da Lacoste, que em 2021 se tornou polêmica ao não incluir artistas do gênero em sua publicidade “Crocodilos jogam juntos”: a marca trouxe artistas associados a uma estética branca e elitizada (Jão, João Guilherme, Helena Bordon), excluindo rappers e funkeiros que frequentemente mencionam a marca. Isso gerou críticas massivas, inclusive sugerindo que a Lacoste estaria “com vergonha” de seus consumidores periféricos (TERRA, 2021).

Essa situação demonstra a dificuldade de grandes marcas fecharem contratos ou fazerem colaborações com cantores do gênero, justamente para evitar associações com as classes mais baixas, revelando um claro descaso com quem mais consome e valoriza essas peças.

Estética, preconceito e poder

Classicismo

O assunto se torna ainda mais complexo quando se percebe que a exclusão vai muito além das correntes douradas e camisas de marca: existe uma estrutura profunda de racismo e desigualdade de classes que usa a estética como método de controle social. Quando jovens negros e periféricos decidem se expressar por meio da moda e conquistar visibilidade, são frequentemente e, de forma equivocada, vistos como ameaças.

A associação entre minorias e criminalidade não é recente e se manifesta de diversas formas e situações – e na moda não seria diferente: abordagens policiais, olhares desconfiados e julgadores em espaços públicos. O que gera essas reações não é a vestimenta em si, mas sim quem a veste. Um jovem branco e rico seria visto como descolado, influente e estiloso com a mesma peça que faria um jovem periférico ser enquadrado.

Fica evidente, então, que o verdadeiro motivo das críticas à moda da periferia não está na estética, mas sim na tentativa de criar barreiras e muros simbólicos entre os indivíduos. O mercado, a polícia e as redes sociais atuam juntos para definir o que deve ser aceito, valorizado e destacado — fazendo com que a exclusão seja ainda mais dolorosa, pois vem de todos os lados. Trata-se da chamada necropolítica: o uso do poder social e político para decidir quem vive e quem morre — não apenas fisicamente, mas também de forma simbólica, moral e cultural.

Vestir-se é também resistir

Devemos urgentemente entender que a democratização da moda é linda e necessária, pois só reflete boas intenções: a reutilização em brechós, a autoestima e a beleza em diferentes corpos.

É necessário que as marcas percebam, de forma positiva, a visibilidade dessa causa. Já a sociedade deve entender que o estilo deve ser de todos e que ser autêntico não tem preço; a autoestima não deve ser exclusiva como algumas peças, ela é um direito que nos torna verdadeiramente estilosos e confiantes. O pobre não quer parecer ser rico: ele quer ser ele mesmo e comunicar isso, porque se vestir também é existir — e ninguém deveria precisar pedir permissão para existir com dignidade.

A RI USP Jr. está sempre atenta às tendências e ao contexto em que estão inseridas. Para fazer uma análise de mercado alvo com profissionais responsáveis entre em contato gratuitamente.

Autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *