O que um tênis esportivo retrô, um modelo inspirado no balé e um chunky sneaker futurista têm em comum? Mais do que você imagina. O Adidas Samba, o Puma Speedcat Ballet e o New Balance 9060, apesar da proposta e público distintos, todos se tornaram parte do “uniforme” da Geração Z. Porém, os tênis não são os únicos nesse uniforme, outros tipos de calçados e roupas, como as Western Boots, os Kitten Heels e as Blusas Polka Dots, aparentemente, ligados a estilos específicos, agora coexistem no armário da Geração Z. Nunca tivemos tantas opções para compor um estilo próprio, e ao mesmo tempo, nunca vestimos (e calçamos) tão igual.

A moda é atemporal
A moda é um fenômeno social que acompanha transformações culturais, econômicas e políticas, funcionando como reflexo do período. Em épocas de estabilidade política e financeira, os estilos tendem a ser mais livres e criativos. Na década de 20, por exemplo, com a ascensão econômica americana, houve a ascensão de vestidos e saias no estilo art deco, ou seja, mais extravagante, com plumas, bordados e pedraria, mas, com a chegada da crise em 1929, a moda acompanhou o contexto social, a extravagância caiu em decadência e surgiu uma moda mais conservadora, com vestidos mais longos e cores mais neutras.
Historicamente, as tendências seguem um movimento cíclico: elementos que estiveram em alta em décadas anteriores retornam, adaptados às demandas do presente. A estética clean girl é um exemplo disso, (re)nascida durante a pandemia, ela espelhou o contexto da época: recessão econômica e crise, assim as pessoas buscaram priorizar o essencial, consumindo somente o necessário e dando maior valor a qualidade dos produtos que consomem. O resgate dos anos 2000, ou da estética old money são outros exemplos disso. Isso deixa claro que a moda sempre dialoga com contextos mais amplos, como crises econômicas, avanços tecnológicos e debates identitários. Além disso, a internet permite que referências visuais circulem em velocidade sem precedentes, encurtando o intervalo entre o surgimento (ou ressurgimento) e a popularização de estilos.
Hoje, com o fluxo contínuo de imagens nas redes sociais, e com o papel vital dos influenciadores para a moda e as tendências, embora exista um leque quase ilimitado de possibilidades, observa-se uma homogeneização: por que, em meio a tantas alternativas, tantos acabam se vestindo de maneira tão semelhante?
Trickle Down vs Bubble Up: Qual está certo?
Entre as teorias que buscam explicar o surgimento das tendências, destacam-se o trickle down e o bubble up. A primeira defende que os estilos nascem entre as elites e, gradualmente, “descem” para as demais camadas sociais, perdendo a exclusividade, e eventualmente a popularidade, fenômeno observado, por exemplo, com a marca Lacoste, que após se tornar popular, principalmente na periferia, perdeu relevância, tanto que não é mais vista como marca de luxo. Já o bubble up propõe o inverso: inovações surgem nas ruas, em subculturas e grupos marginalizados, e sobem até as passarelas, como ocorreu com o streetwear e com itens associados ao movimento punk. Entretanto, ainda que se fale em movimentos vindos de baixo para cima, frequentemente grandes tendências só se consolidam após uma validação vinda do topo, ou por marcas, ou por celebridades.
Mas, as redes sociais vêm acelerando o funcionamento do trickle down e o bubble up. Plataformas como Instagram e TikTok encurtaram a distância entre influenciadores e consumidores, tornando o processo quase simultâneo: uma peça usada por uma celebridade, em pouquíssimo tempo, passa a ser replicada por milhares de pessoas. Além disso, esse ambiente digital também acelerou o ciclo de vida das tendências. O que antes levava temporadas para se consolidar agora atinge o auge em questão de semanas e desaparece com a mesma velocidade. Posts e vídeos curtos criam um desejo instantâneo, mas passageiro: os sapatos Mary Janes, ou a micro bolsa Jacquemus, antes itens “must have”, hoje são vistos como ultrapassados. Essa rapidez impõe um ritmo de consumo quase impossível de acompanhar, dando a sensação de que todos estão sempre correndo atrás do mesmo item, antes que ele perca relevância.

Uniforme “Escudo” da Geração Z
O algoritmo, em busca de engajamento, acaba reforçando sempre as mesmas imagens, dando enfoque em poucos estilos. Assim, a promessa de variedade e inspiração é convertida em padronização global. Por trás dessa padronização está a necessidade de pertencimento. Em um mundo extremamente conectado, jovens enxergam nas trends uma forma de se encaixar em grupos. Seguir essas tendências garante uma sensação de inclusão, até porque ninguém quer ficar de fora por ser “desatualizado”. O problema é que essa busca por aceitação coletiva muitas vezes enfraquece a individualidade, transformando escolhas de estilo em meros sinais de adequação.
Em períodos de instabilidade, essa dinâmica de pertencimento ganha ainda mais força. A moda, além de expressão da preferência estética, funciona como uma linguagem: usar os mesmos símbolos transmite segurança e reforça a sensação de estar dentro de um grupo. Durante crises econômicas, políticas ou sociais, é ainda mais comum que todos se vistam iguais, já que o coletivo oferece uma espécie de proteção simbólica diante da incerteza. Assim, a escolha por determinados itens não se limita ao gosto pessoal, mas também à busca por uma estabilidade e validação social.

O resultado desse processo é visível nas ruas e nos feeds: um dress code universal. O Adidas Samba, por exemplo, virou um dos maiores símbolos dessa estética padronizada, seguido pelo brinquedo/acessório Labubu, e pelas bolsas Longchamp que ressurgiram como item fashion. Juntos revelam a homogeneidade de um estilo, que se tornou replicado em escala global.
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